| pagina seguinte |
| poesia |
| cronicas |
| contos |
| cultura |
| educação |
| agenda cultural |
| humor |
| ambiente |
| solidariedade |
| assuntos europeus |
| ciência |
| tecnologia |
| colunas/empresa |
| biografias |
Conto Infantil de Cremilde Vieira da Cruz (Avómi)
Quem é a Avómi ?
A Avómi chama-se Cremilde Vieira da Cruz e nasceu em 1937, em Maceira Liz, Concelho e Distrito de Leiria.
Como todas as crianças, gostava de brincar, de ouvir contar histórias e sempre
gostou muito de poesia.
Quando estava ainda na instrução primária, o equivalente ao primeiro ciclo
actual, recitava poesia nas festinhas da escola.
Começou a ler cedo e todos os livros de contos que lhe passavam pelas mãos eram
lidos e relidos, para depois poder contar as histórias aos seus amiguinhos.
Após fazer o exame de admissão ao liceu e por força das circunstâncias, esteve
dois anos sem ser matriculada no liceu. No entanto, teve, durante esse tempo, um
professor particular que lhe foi ensinando a matéria correspondente àqueles
anos.
Nessa altura já escrevia poesia e alguns contos, mas tinha vergonha de mostrar e
acabava por deitar no cesto dos papéis que é aquele recipiente utilizado para
depositar o papel que não é necessário.
Veio viver para Lisboa aos doze anos onde foi matriculada num curso comercial,
quando o seu sonho era fazer o liceu e, mais tarde, o curso de germânicas, uma
vez que, sempre sonhara ser professora. Terminado aquele curso, fez um curso de
secretariado.
Em 1959 foi viver para Angola onde, a dada altura, resolveu continuar a estudar
com a intenção de fazer o liceu e, quiçá, concretizar o seu sonho de tirar o
curso de germânicas e vir a ser professora. Não tirou o curso de germânicas, mas
foi professora primária (ensino básico), e foi das coisas que mais gostou de
fazer. Entretanto foi estudando e fazendo alguns cursos por correspondência.
Neste espaço de tempo continuou a escrever, às vezes até na areia da praia, mas
nunca quis guardar o que escrevia.
Em 1975 foi para a África do Sul e ali permaneceu um ano.
Em 1976 veio para Lisboa e em 1977 foi para a Ilha da Madeira onde viveu doze
anos. Por imposição de uma amiga, começou a guardar contos e poesia. Desde 1989
até 1994, publicou no Jornal da Madeira, no suplemento «Bem-me-quer», mais de
uma centena de contos infantis. No Jornal Eco do Funchal, foram também
publicados alguns poemas.
Em 1989 veio viver para Lisboa e mais tarde publicou o livro «Contos da Avómi».
A Pulga Teimosa
Aquela Pulga era tão pequenina, tão pequenina, que o Cão Calcinhas não conseguia vê-la. Ele resmungava e ela ria às gargalhadas, saltando daqui para ali e dali para acolá. Mal ele acabava de coçar uma pata, já ela estava na barriga, coçava a barriga, ela saltava para uma orelha, e assim sucessivamente.
O Cão Calcinhas que era muito esperto, farto da Pulga Teimosa e das gargalhadas
que ela dava a troçar dele, pensou:
- Espera lá, pulga marota, que vou chegar para ti. Estás a armar-te em esperta e
a brincar comigo, mas vais arrepender-te.
Sem mais delongas, o Cão Calcinhas pôs-se a caminho do rio. Chegado lá, deu um
mergulho, mas arrepiou-se todo, porque a água estava muito fria. Voltou a
resmungar qualquer coisa que a pulga não entendeu, mas como era bom nadador e
porque depois do primeiro impacto com a água se sentiu bem, deixou-se ficar um
bocado, foi nadando, nadando, e acabou por se esquecer da pulga.
Quando se cansou de nadar, saiu da água, foi estender-se ao sol para secar o
pêlo e descansar um pouco. Porém, mal se tinha acomodado, ouviu uma gargalhada,
sentiu uma picada numa orelha e então sim, lembrou-se que, apesar de ter estado
dentro de água para se ver livre da Pulga, não tinha resultado.
A Pulga ria, ria, picava aqui e ali, o Cão Calcinhas coçava ali e acolá e a dada
altura ela disse:
- Que bem que se estava dentro de água! Por que não mergulhas outra vez? Nem me
apeteceu picar-te e estava tão consolada, que queria ficar lá o dia todo. Como o
tempo está quente, sabe mesmo bem dar uns mergulhos, não achas? Vá, anda daí se
não continuo a picar-te!
- Pulga duma figa, desaparece do meu corpo, senão...
-Ah, ah, ah... que bem se está aqui! - disse ela - Estou bem alimentada, porque
o teu sangue é bom, bem cheirosa, porque o teu pêlo é um asseio, e tens um
perfume que me agrada, que mais eu quero? Nem penses que algum dia sairei daqui,
Cão Calcinhas!
Só se me matares, o que é difícil, porque quando vieres com a pata ao sítio onde
eu estiver, saltarei logo para outro e continuaremos a brincar às escondidas, o
que me divertirá imenso.
O Cão Calcinhas, mal disposto e irritado, disse:
- Espera aí que te hei-de apanhar, Pulga maldita.
E pôs-se a correr à volta de uma árvore; correu, correu, até ficar tão cansado
que caiu estonteado e a ver tudo a andar à roda. Fechou os olhos e, dali a
pouco, já menos estonteado, pensou:
- Fiquei exausto, mas valeu a pena. Irra, que a maldita da Pulga nunca mais me
deixava! Se calhar, ficou tonta como eu e caiu.
- Ah, ah, ah, ah... - Era de novo a Pulga que, sem mais aquelas, pregou-lhe uma
picadela, desta vez na ponta do focinho. - Querias expulsar-me, não era?
Pensavas, que por andares feito tonto, à roda da árvore, eu ficaria tonta como
tu, não? Enganaste-te redondamente, porque adorei e diverti-me imenso. Aquele
ventinho que passava pelo meu pêlo, à medida que te deslocavas, soube-me tão
bem, que estou aqui fresca que nem uma alface acabadinha de colher na horta.
- Ora esta! Que hei-de fazer para me livrar desta maldita? - pensava o Cão
Calcinhas, muito aborrecido com a situação - Se a apanho, dou-lhe uma dentada
que a desfaço.
Por mais pensamentos, por mais voltas que desse à imaginação, o Cão Calcinhas
não conseguia descobrir uma maneira de fazer desaparecer a Pulga Teimosa, porque
ela, espertalhona, ainda que não se sentisse bem com as experiências feitas por
ele, dizia que lhe tinha agradado muito, aconselhando-o a repetir.
O Cão Calcinhas sentia uma grande frustração por não conseguir expulsar a Pulga
Teimosa do seu corpo, e um dia, já cansado de tanta luta, resolveu deixar de
fazer diligências nesse sentido, pois andava tão cansado, tão cansado, que já
nem tinha forças.
A Pulga Teimosa picava, picava, e o Cão Calcinhas nem se queixava, apesar do
incómodo que lhe causava.
Ora, a Pulga Teimosa começou a ficar irritada com a situação, dado que, por mais
que picasse o Cão Calcinhas, ele não se queixava e, como deixou de ter luta, um
dia aborreceu-se a sério com tanta monotonia, e foi-se embora.
Nessa altura é que o Cão Calcinhas suspirou de alívio, mas não disse nada, não
fosse ela ouvir e voltar a instalar-se no seu corpo, para o aborrecer.
