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Poesia
de Ilona Bastos
«- As maneiras distintas são difíceis de imitar, porque constituem, por assim dizer, qualidades negativas e exigem uma prática longa e contínua. Nada devemos apresentar no traje que lembre o cargo que temos, para não nos expormos a que nos chamem orgulhosos.
Temos que fugir do vulgar, nunca nos descuidarmos, nada fazer com excesso, nem em favor dos outros nem em nosso, não nos comovermos nem nos apressarmos, mantendo sempre um sereno equilíbrio exterior, quaisquer que sejam as tempestades que surjam dentro de nós.
O nobre pode às vezes extraviar-se; o distinto nunca. E como um homem bem vestido que não se encosta a nada e em quem ninguém pensa tocar. Distingue-se dos outros, e contudo não deve permanecer isolado, pois em todas as partes, e particularmente nesta a que nos referimos, a coisa mais difícil deve executar-se com facilidade.
Assim o homem distinto, apesar de todas as separações, deve aparecer sempre ligado aos mais, e portar-se em toda a parte por forma que, sem impor-se, seja o primeiro.
Numa palavra: para parecer distinto, é preciso sê-lo realmente.»
Goethe, Um Homem Feliz (Wilhelm Meister)
Texto recolhido no Blog de Ilona Bastos «Da Matéria das Estrelas»
O Sono e o Brilho
Brilham a água e as bolhas transparentes.
Por mim, tenho sono. Não tomei café...
Ou será da leitura, que sinto aborrecida?
Ou antes do sol, que bate nas letras pretas
deste livrito bege e me torna o olhar parado,
pasmado, à beira do precipício do sonho?
Não importa. A água brilha e encandeia.
O ruído surdo de conversas distantes, e próximas,
e do avião que surge, gigantesco passarão,
na paisagem paradisíaca do Campo Grande,
alimentam a sonolência da ocasião.
Brilha a água, e as bolhas transparentes (também elas),
como mísseis electrónicos,
disparam cadenciadamente do fundo do copo
até atingirem a superfície.
Assim também as ideias me surjam,
cometas fugazes de trajectória brilhante,
no afundar doce, hipnótico, incoerente, do abismo do sono.
Não tomei café...
Ilona Bastos
ECOS
Mesmo que aos ouvidos
me não cheguem,
os ecos existem, eu sei.
Largados no espaço, talvez.
Aos meus anseios, eu sinto,
uma voz responde,
inaudível mas forte,
ao longe criada, difundida
pelos confins do Universo.
Mas como encontrá-la,
se aos meus ouvidos não soa,
ao meu olhar não aporta,
em meus dedos não se aninha
essa voz, eco de vida e amor?
Só, à margem dos sentidos,
cabe ao coração se abrir
às ondas vogando, voláteis
carícias do Criador!
.
Ilona Bastos