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O terminal

Conto por Roberto Kusiak
Seu último suspiro não foi de felicidade, não foi de tristeza ou angústia. Não foi nada de absolutamente nada além de um suspiro. Morreu, com os olhos fechados, a boca semiaberta, a cabeça pendida para o lado esquerdo.
Não acredito em deus. Não tenho motivo algum para acreditar que ele exista, ou existiu. O mais próximo que cheguei de sua existência, foi pensar que ele não passa de um grande filho da puta sádico, egoísta e mais perverso que o demônio, outro carinha que não me convenceu.
As pessoas nascem boas ou más, nada mais além disso. Infelizmente, as poucas pessoas boas que conheci se foram. Minha mãe e Carmem, minha esposa. Ambas foram mortas. Duas pessoas cujas vidas libadas fariam inveja até mesmo para a Madre Tereza de Calcutá.
Somente eu restei, eu e minha consciência, meu tormento. Meus questionamentos acerca de deus. Imbecil, poderia ter me levado ao invés delas. Isso mesmo, você não passa de um grande e estúpido hipócrita. Você ri quando sofremos, gargalha quando inocentes morrem ou são mortos, zomba diariamente da nossa cara quando um viciado nos assalta no meio da rua.
Não lhe bastou ver os olhos de minha mãe olhando para o céu no seu último instante, tentando te encontrar. Sim, ela acreditava em você, e onde você estava? Curtindo com ninfetinhas no paraíso? Precisava abandoná-la naquela hora? Precisava fazer eu me sentir culpado por não poder ajudá-la. Por me deixar com essa dor me corroendo, me culpando?
E Carmem, o que me diz sobre Carmem? Quando eu estava convencido de que poderia conviver com aquela culpa, você tinha, um ano depois, que fazer a mesmíssima coisa com ela? O que foi que ela te fez para merecer tanto sofrimento? E isso que você quer para «seus filhos»?
A vida é isso mesmo, vão-se os bons, ficam pessoas como eu. Ainda não sei qual rumo dar para minha vida. Quando se perde os alicerces da própria vida, quando as dúvidas rondam sua cabeça a cada segundo, fica difícil tomar qualquer decisão, como esta que estou prestes a tomar. Puxar ou não puxar, eis a questão. Queria ver Shakespeare com essa arma na mão ao invés de um crânio.
Tornei-me um assassino cruel, frio e calculista por matar minha mãe e Carmem? Não sei. Mas fiz o que tinha de ser feito e não há como voltar atrás. Deus não estava lá para me impedir. E agora, será que ele vai impedir a minha própria morte?
Se aparecer, só reforça minha ideia de que ele não passa de um sádico quer ver meu sofrimento e dar risada da minha cara. Se não aparecer, reforçará ainda mais sua inexistência. Isso provará que nada mais somos do que bons e maus, e que os bons morrem, como mamãe, Carmem e agora eu.
Cansei de me culpar por desligar seus aparelhos. Era o que eu precisava fazer para evitar seus sofrimentos. Fiz o que deus deveria ter feito com elas e comigo nesse instante. Acabar com o sofrimento do câncer terminal.