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COLUNA
DE HAROLDO P. BARBOZA
Nota de Daniel Teixeira: O nosso amigo Haroldo P. Barboza é um dos nossos colaboradores mais antigos.
Faz parte daquela excelente plêiade de colaboradores que iniciaram o RAIZONLINE e é excelente esta referida «colecção» de colaboradores por várias razões: primeiro e sem dúvida pelo empenho demonstrado ao longo dos tempos e pela demonstração clara de uma vontade de trabalhar que ultrapassou em muito aquilo que seria normal noutras situações: trabalhar desde o início num jornal que teve inicialmente e durante algum tempo um aspecto gráfico lamentável (mas era o possível, disso estamos cientes) não é de facto para qualquer um: é preciso ter estômago e agora que olhamos para trás pudemos sentir quanto «estômago» teve o Haroldo e outros que iremos referindo ao longo dos tempos.
Depois, e numa outra linha de pensamento, o Haroldo é um pouco a imagem daquilo que nós queremos manter sempre vivo no nosso Jornal : a sua persistência em desvendar escândalos político / financeiros interessa pelos temas que levanta mas interessa ainda mais porque (e penso que isto seja evidente) é em grande parte o que se chama «malhar em ferro frio»: os resultados ou as mudanças obtidas através de um protesto constante são praticamente nulos na sua dinâmica...acaba um hoje, amanhã outro começa e estamos todos longe de ver aquela sociedade ideal em que as pessoas se dedicam mesmo à causa pública por inteiro.
No nosso jornal também se faz isso, quer dizer, malha-se muito em ferro frio, não no plano dos escândalos político / financeiros mas no plano da nossa luta pela cultura real, de raiz e de intervenção social dos povos e das pessoas. Mas tanto o nosso amigo Haroldo como nós aqui no Jornal sabemos perfeitamente que o que interessa, por vezes (ele - Haroldo - é matemático) não é que as contas feitas dêem todas resto zero: o que interessa também é ir sempre fazendo contas: alguma coisa daí sairá, seguramente. E tem saído, e vai continuar a sair...
Esta semana é a segunda vez, neste número, que referimos e agradecemos a persistência dos nossos colaboradores. O Haroldo é disso também um exemplo: Deus o guarde sempre...
A luz do túnel apagou.
A maneira das elites governantes manterem o povo domesticado é simples: basta evitar que 95% da população tenham acesso à prática da educação e cultura de bom nível. Mantendo o rebanho ciente apenas das 4 operações aritméticas (excluindo números decimais, é claro) e de como se escrevem umas 50 palavras (excluídas as que possuam «ss», «ç», «x» e «ch» – crase, nem pensar) é o bastante para enganar os eleitores com notícias fantasiosas e picotadas.
A partir deste estágio fica fácil enganar por longo tempo a galera que só
tem acesso às notícias por três meios:
a) Tele-jornais conduzidos por simpáticas estampas;
b) Manchetes de jornais pendurados nas bancas;
c) Rádios com programas conduzidos por locutores de boa dicção.
A Internet (ainda sem controle total por parte dos abutres) só atende 10% da
população. Dentro deste universo, 40% a usam para fins profissionais. Pelo
menos 50% usam para trocar fotos de artistas pelados, receitas para
confecção de drogas, marcarem rachas e brigas nas ruas pela madrugada, troca
de notas amorosas e enviar recados malcriados para clubes que perderam algum
jogo de futebol. Pouco menos de 10% a usam para pesquisas sérias (escolares,
culturais, turísticas) e articulação de comportamentos que possam cobrar
ações das autoridades para elevar o padrão de vida comum.
Dominando estes três principais canais de informações, os gerenciadores
públicos conduzem suas artimanhas escusas sem receio de levante popular.
Quando um fato mais grosseiro escapa ao controle e chega a irritar o povo
prejudicado, imediatamente geram um factóide inútil para atingir o emocional
das mentes indignadas e acalmá-las com rapidez.
E o excluído que com sorte encontra um trabalho temporário de 12 horas por
dia por um SM acredita estar bem «informado» quando toma conhecimento de um
fato divulgado com o seguinte teor:
a) Musa do BBB ontem dormiu com garanhão louro usando calcinha amarela com
detalhes em rosa (quem usava a calcinha?);
b) Atacante da seleção pode não jogar amanhã por que sua aliança de noivado
ficou apertada em seu dedo (seria no dedo do pé?).
Tais notícias deixam a galera em alvoroço enquanto os mentores dos gabinetes
tranquilamente dão andamento aos seus planos de aumentar suas contas
bancárias em detrimento dos serviços públicos.
Então nos defrontamos com manchetes na página 1 do tipo (publicada no RJ em
jun/2010):
POLICIAIS DA PM RECEBERÃO AUMENTO DE 70%!
Pronto! O povo passa a acreditar que nossos policiais finalmente terão um
salário mais digno.
Mas a proposta real aparece com letras miúdas na 11ª. página: tal aumento
será concedido em 48 parcelas a partir de jan/2011. Um percentual que talvez
empate com a inflação mensal (camuflada por itens em deflação, como a bola
de tênis, cujo preço caiu barbaramente depois do afastamento do esforçado
Guga).
Se um bairro pobre é alagado mais uma vez depois de 45 anos de repetição, a
mídia «alivia» a incompetência da Prefeitura com a manchete:
PREFEITO VAI CRIAR PISCINÃO PARA OS MORADORES DA FAVELA DO BARRO MOLE USANDO ÁGUAS PLUVIAIS! Tão bonzinho.
E assim o rebanho bem «informado» continua sendo conduzido para o pasto da miséria geral, localizado além do tal túnel desmoronado.
Onde já não brilha mais uma luz em seu fundo.
(*) R$ 30 BI (aviões) + R$ 20 BI (FMI) + R$ 20 BI (olimpiada) = zero
(educação, saude, habitação, transporte, segurança)
(*) = VALORES SUJEITOS A TRIPLICAÇÃO
Nossa sociedade é um colosso. Sobrevive no fundo do poço.
Referendo de sucesso será o que propuser expurgo no Congresso.
Haroldo P. Barboza - RJ/Vila Isabel
Perda da copa – os culpados.
A imprensa busca um culpado pelo fracasso na copa de 2010. Se tiver apenas
um, vende bastante jornal durante uma semana. Vão buscar qualquer insucesso
da vítima até mesmo em sua infância.
Mas existem diversos culpados. A ordem e o peso não importam. Mas não há
interesse da mídia em ilustrar alguns deles. Quem escolheu um técnico. Não
basta ser um sujeito de bom caráter. Precisava ter tido experiências em
clubes durante 5 ou 8 anos.
A escolha equivocada dele dos atletas para compor o time. Muitas vezes a
teimosia ofusca a lógica. Médico que libera jogador com 80% de suas
possibilidades. Na copa, estando com 99,5% já representa um alto risco.
Corneteiros que zoam durante 24 horas nos ouvidos da comissão. Existem
diversos «espertos» nas imediações para sugerir esquemas, táticas e
jogadores.
Patrocinadores e empresários que forçam convocações. O que lhes importa é a
figura estar na «moda» mesmo sem obter o título. Projetam o futuro de 8 a 10
anos e influenciam para evitar a monotonia.
Vaidade entre atletas já bem sucedidos. Alguns sem raciocínio para o
universo fora das 4 linhas acreditam serem os melhores do mundo de todos os
tempos.
Cozinheiro que montou a refeição horas antes do jogo decisivo.
A festa com o «pé - frio» nacional, que secou Guga, Popó, Corinthians,
Fluminense e tantos outros.
Não citarei mais 10 que me ocorrem para não esticar o comentário.
Obrigado Dunga!
Os times populares brasileiros de futebol não deram sua cota adequada de contribuição para que o povo desperte da ilusão de que tudo está bem. Mesmo com um futebol de baixa qualidade, conquistaram merecidamente os títulos em seus estados e com isto, provocaram euforia em quase metade da população nacional, que por alguns dias esquecem a falta de alimentação, saúde, emprego e esperança.
Pessoas sem apoio social permanecem anestesiadas por quase um mês dando tempo ao governo para se arrastar mais um tempo sobre suas mancadas armadas. As festas pelas conquistas ainda ecoam pelos ares, alimentando a alma da população sofrida. O brilho dos campeões supera o perigo dos futuros apagões e falta de futuro para nossos jovens.
Já a seleção nacional, composta por jogadores que já estão bem estabelecidos na vida, mas são oriundos de regiões pobres e sofredoras (e ainda se lembram das dificuldades dos tempos da infância?), numa profunda demonstração de civismo, comandados por Dunga, abriram mão de disputar um título inédito na Africa, que poderia lhes render mais alguns milhares de dólares nos prêmios e atuaram de forma bisonha, para não correrem o risco de vencerem um torneio preparado pelos patrocinadores para colocá-los na final.
Com isto, evitaram heroicamente, que o governo usasse o feito como mais uma
realização social em prol da felicidade geral. O pé - frio oficial mais uma
vez secou um esportista nosso.
Agradecemos a Dunga (o bravo comandante desta cruzada e que heroicamente
peitou a TV Bobo) por não ter convocado os melhores, tentando nos impedir
que chegássemos ao título da copa de 2010 e ajudando a aumentar a
insatisfação popular, nos permitindo congregar forças para derrubar este
sistema que nos asfixia e nos transforma em escravos das elites dominantes.
Temos de torcer para que ele (ou o próximo técnico) dê continuidade a este caos esportivo para receber uma estátua tão logo tenhamos sucesso em nosso projeto de libertação da nação. Espero que não chamem o Luxemburgo. Se o chamarem, que não aceite, para não ajudar aos abutres no uso indevido do esporte para esconder suas sujeiras.
Já imaginaram a tragédia que poderia acontecer se a nossa seleção vencesse a copa em junho de 2010? Os jornais domesticados pelos poderosos patrocinadores que enriquecem à custa de nosso sofrimento eterno ficariam ocupados com manchetes relativas ao feito esportivo durante quatro meses alimentando uma campanha eleitoral apoiada apenas no sucesso esportivo. Seria lançada uma novela no horário nobre mostrando a vida do artilheiro que nos deu o título.
Neste período antes da farsa cívica, os abutres do poder terão que se empenhar para adulterarem as urnas (já treinaram no Senado) e montar os conchavos de fatiamento do que ainda resta do nosso sucateado patrimônio público.
Obrigado Dunga. Você fez sua parte com louvor. Seremos sempre gratos a você.
Não teremos de aturar pilantras desfilando em carros dos bombeiros enquanto a nação arde nas chamas da incompetência, da corrupção e da impunidade.