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Coluna de Cecilio Elias Netto

Cecílio Elias Netto é fundador do Jornal A
PROVINCIA
A PROVINCIA, como jornal impresso, foi fundada em 28 de Agosto de 1987, pelos
jornalistas Cecílio Elias Netto e Gustavo Jacques Dias Alvim.
Durante duas décadas, com idas e vindas, ela cumpriu o seu propósito e o sonho
desenvolvido: recuperar a memória de Piracicaba, especialmente através da
oralidade de seus mais antigos moradores, contar a história do município e da
região, com fartura de documentos e de fotos e postais.
O lema continuou vivo quando, há cerca de dois anos, A PROVINCIA ingressou no
universo digital, criando A PROVINCIA electrónica, com o mesmo objectivo e a
mesma motivação: «Paixão por Piracicaba».
A vingança africana
A Africa, mãe da humanidade, está se revelando ao mundo, ainda outra vez, com sua beleza esplendorosa, com riquezas naturais que explicam a ganância e os apetites dos poderosos que, ao longo dos séculos, a exploraram. Sua cultura – somatório de diferentes etnias – é como um caleidoscópio a ser admirado em suas múltiplas formas. E a simpatia irradiante do povo – mesmo entre os que ainda vivem em condições precárias – conquista o mundo, ainda influenciado pela cultura européia e, agora, estadunidense – contrasta com o mau humor e os ranços dos ocidentais, mergulhados em suas neuroses econômicas.
Mesmo sendo berço do primeiro homem, palco de importantes civilizações antigas, a Africa se transformou no mais perseguido e vilipendiado dos continentes, explorada pela ganância de países e grupos internacionais caucasianos. Não há como, em rápidas pinceladas, narrar o horror de que tem sido vítima o povo africano nos últimos séculos, desde a perfídia da escravidão até a exploração brutal de suas riquezas e recursos nacionais.
Por isso, a decisão de a Copa do Mundo de 2010 realizar-se na Africa do Sul – essa Africa sobre a qual paira, qual anjo tutelar, a figura de Nelson Mandela – chegou a soar, também, como um reconhecimento das injustiças cometidas e a necessidade de uma reparação universal pelos males cometidos. Além, é óbvio, do fato de a África do Sul ter-se transformado num dos mais poderosos países emergentes.
A cultura, a religiosidade dos africanos nunca foram compreendidos pelo chamado homem branco, o caucasiano que acreditou pudesse dominar o mundo indefinidamente. Basta ver que, apesar de séculos de domínio britânico, belga, francês e até mesmo romano, os africanos souberam manter tradições e costumes inalteráveis, com seus deuses e demônios convivendo em seus belíssimos e estranhos rituais litúrgicos.
Pois bem. Confesso que sempre me deixei impressionar por aquelas máscaras de demônios africanos, quase todos ligados a rituais mágicos, a bruxarias que ainda nos são desconhecidas apesar do sincretismo religioso que ocorreu também no Brasil. Há, naquelas máscaras, a beleza plástica da feiúra, o que permite considerações estéticas admiráveis de nossos especialistas. Em quantas e quantas obras, o demônio não se apresentou sob forma tradicionalmente bela, para se revelar, depois, em sua feiúra? E o sapo que se transforma em príncipe?
De alguma forma, penso eu, a plasticidade dos demônios e deuses africanos me pareceu, sempre, como que uma vingança africana contra o homem branco, dado a inventar anjos e madonas louras e de olhos azuis. Não passa de elucubração, de conjectura, é óbvio.
Mas, agora e com a Copa do Mundo, estou sentindo que a África não se limitou, apenas, a se vingar do homem branco com suas máscaras e seus demônios. A vingança da Africa, agora, está em enlouquecer o mundo com a poluição sonora, com o barulho, com o ensurdecimento global. E essa vingança tem um nome: vuvuzela.
Ora, uma vuvuzela atrapalha muita gente e duas vuvuzelas atrapalham muito mais. E milhares, milhões de vuvuzelas, aquelas cornetas cujos ruídos entram pelos ouvidos, chegam ao cérebro, entorpecem qualquer capacidade de raciocínio.
Assisti ao jogo entre África do Sul e México. Aliás, tentei ver, pois comecei a ficar atordoado com o zumbido das vuvuzelas, irritado com o que eu nem mais sabia o quê, como se meu corpo todo estivesse concentrado nos tímpanos, nos ouvidos. Chegou um momento em que eu não sabia mais qual time era qual. Fiquei feliz quando a Africa do Sul marcou o primeiro gol mas, confesso, quase nem percebi o gol do México, como se eu estivesse hipnotizado, narcotizado.
E, maldição das maldições, depois que o jogo acabou e durante o restante do dia, o som das vuvuzelas permanecia em mim, como se viesse de meu jardim, de meu quarto, de minha sala de almoço, do banheiro. Não tenho mais dúvidas: vuvuzela é a nova vingança africana contra os branquelos do mundo todo.
Bom dia.
Cecílio Elias Netto
Nota: Pode comentar este texto directamente no jornal A Província carregando aqui.
