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Vou-me embora para uma qualquer Pasárgada

Por Afonso Santana

Na continuação do texto glosando o poema de Manuel Bandeira «Vou-me embora para Pasárgada» (ver número anterior) vou repetir que o titulo base do meu trabalho é «Vou -me embora» e pedindo desculpas repetir a introdução do mesmo para um melhor entendimento da minha «tese»: «Vou-me embora» é o título de um trabalho que eu tenho realizado cuja extensão é enorme porque resolvi fazer uma recolha de alguns textos e poemas que se basearam no tema. Partir para quê? Partir para onde? Deixar um lugar ou um tipo de vida é uma ambição raramente concretizada mas está muitas vezes presente no pensamento das pessoas.

Ir embora é sempre uma fuga...uma recusa da luta, a assunção de que não vale a pena lutar ou que é mais fiável ou certo ganhar-se «indo embora» do que continuar a lutar naquele campo. Mas interessa também saber se o campo merece a luta, por muito envolvente que ele seja, ao ponto de não nos deixar alternativa senão «ir embora» há campos que não merecem que lutemos dentro deles ou por eles. Ir embora...ir embora, há quase sempre quem queira sair de um dado lugar ou de uma dada situação. Importante é saber-se quando dada coisa ou situação justifica, importante é saber-se quando essa coisa ou situação merece a honra de nos fazer ir embora.»

Mas ir embora é mesmo ir embora? Ou será antes um regresso a algo de agradável de que nos recordamos, de que guardamos uma boa memória, seja ela própria ou «intuída» por via cultural?

Sobre este poema há que ver que não é de todo impossível aventar-se, sem grandes ofensas, o regresso ao ventre materno, como forma de ir embora:

No Ventre da Mamãe

Ana Paula Ferreira

Vou-me embora para o ventre
O ventre onde nasci
Lá tenho proteção e abrigo
Bem mais do que tenho aqui
Vou-me embora para o ventre

Vou-me embora para o ventre
Aqui até vivo contente
Lá a vida é um sossego
Não há do que sentir medo
Não é preciso ter um brinquedo
Só preciso de minha mãe
Posso chutar sem ter que apanhar
Vou-me embora para o ventre

E posso chorar, cantar, gritar
Sem ninguém pra atormentar
Sem alguém que interfira
Posso amar e sorrir
Sem receio de sofrer
Sem temer o adeus
Posso ser indefesa
Tenho quem me proteja
Me alimente, me dê carinho
Lá não estou sozinha
Vou-me embora para o ventre

Aqui dentro tudo é claro
Tudo é vida, tudo é luz
Até anjo aqui reside
Pois minha´lma conduz
Posso viver sem esperar
O dia que irei morrer
Daqui não quero sair
Apenas permanecer
Mas infelizmente irá acabar
No dia em que eu nascer
Vou-me embora para o ventre.

Este poema  de Ana Paula Ferreira (os créditos estão abaixo) repetindo a temática de Manuel Bandeira na sua generalidade, tem a particularidade de ser igualmente uma utopia dita (na verdade, salvo raros conceitos místico - religiosos que o referem) ninguém sabe se de facto, no ventre da mãe, aquilo é realmente um «mar de rosas».

Em termos estritamente biológicos continuam a existir dúvidas sobre a placidez do ambiente intra-uterino e da convivência entre feto e organismo da mãe. Se é certo que nascemos, e que, logo, o processo de inter-acção entre feto e organismo da mãe tem em rigor um saldo positivo, nada garante que o relacionamento «químico - biológico» dentro do ventre materno possa constituir-se numa Pasárgada.

Por isso, regressar ao ventre materno, não será antes uma forma de partir? De ir embora?

A Ana Paula Ferreira deixou no site da Vânia Diniz uma pequena biografia que repetimos:

Biografia - Pequena Biografia
Ana Paula Ferreira
Nasci em Araraquara - SP, em 28/06/1985. Sempre morei
nesta cidade. Entrei para a vida escolar com 3 anos de
idade. Sempre estudei em escola pública. Conclui em 2002
o Ensino Médio e neste ano faço um curso extensivo para
tentar uma vaga na universidade.
Comecei a escrever c/ +/- 9 anos. Minha primeira poesia
fiz para minha mãe. Me lembro que a comparava com uma
rosa vermelha na poesia e que ela se emocionou ao ler!
Adorava fazer redações na escola... foi aí que tudo
começou!
Escrevi pouquíssimos textos até agora... Adoro
poemas!!!!!!!! Tenho paixão por eles...
Namoro há um ano e desde o começo, comecei a escrever
mais... O amor transforma, como diz o romantismo!
Quero escrever até quando eu enxergar!!! Faço como
hobbie, por isso não me preocupo em analisar se está
certo ou errado o que escrevo.
Mil beijos

PAULA

Fonte : http://www.vaniadiniz.pro.br/

Acham, lendo a biografia, que a Ana Paula quer mesmo regressar ao ventre materno !?

«Quem não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Poderá voltar ao ventre de sua mãe, e nascer? Jesus respondeu: Em verdade, em verdade, te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus» (Mt 3.5-7)

Ps: de esclarecer que na minha opinião a resposta de Jesus não é muito esclarecedora sobre o fundo do problema levantado por Nicodemos, verificando-se, em linguagem corrente, uma fuga à resposta directa ainda não esclarecida por nenhum Código da Vinci.
Contudo é claro que não é precisa nenhuma intervenção codificada uma vez que cada um (Nicodemos e Jesus) fala de duas formas de nascimento: o Nicodemos do corpo, Jesus da Alma.

 

Vou-me Embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
E outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.


Poema extraído do livro «Bandeira a Vida Inteira», Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90

Nota: Este tema «Vou-me embora» continua no próximo número.

 

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