FIAMA HASSE PAIS BRANDAO
Por Liliana Josué
Fiama Hasse Pais Brandão nasceu em Lisboa a 15 de Agosto de 1938 e faleceu na mesma cidade a 19 de Janeiro de 2007. Até aos dezoito anos residiu numa quinta em Carcavelos onde frequentou o Colégio St. Julian’s School, seguindo depois para a Faculdade de Letras de Lisboa onde estudou Filologia Germânica até ao terceiro ano.
Fazer uma dissertação ligeira sobre esta escritora não é tarefa fácil, pois também não é fácil desvendar os meandros da sua escrita visto as suas directrizes se encontrarem muito viradas para um «aparente» incompreensível muito característico de certos escritores da geração 60/70, os quais me fascinam particularmente.

Como o poeta António Ramos Rosa disse: «Fiama Hasse sente a inextricável
complexidade do mundo e a sua perplexidade perante ele é permanente, embora
não passiva (…)», ou Gastão Cruz, um dos seus maridos «(…) A poesia de Fiama
Hasse mais não fez do que aprofundar as relações entre a linguagem e o
mundo, entre as palavras e a vida, entre as imagens linguísticas e as
imagens reais (…)», «Letras & Letras, 1992».
Fiama Hasse Pais Brandão foi poeta, dramaturga, ficcionista e ensaísta.
Pertenceu à mesma corrente literária de Luíza Neto Jorge, e tal como ela,
revelou-se na Antologia Poesia 61 com catorze poemas intitulados
«Metamorfismos»:
Sofia GRAFIA 1
Agua significa ave
se
a sílaba é uma pedra álgida
sobre o equilíbrio dos olhos
se
as palavras são densas de sangue
e despem objectos
se
o tamanho deste vento é um triângulo na água
o tamanho da ave é um rio demorado
onde
as mãos derrubam arestas
a palavra principia
TEMA 1
Nenhuma ave é central
Multiplico
teus límpios meteoros
nas esplanadas
e sono
denso ventre com febre túneis
cidade úbere de flancos intermináveis
Sequer uma ave subterrânea
em teus olhos rectilíneos
tuas vidraças com pausas para a morte
tuas mãos demolidas
teu vasto sexo desvendado de alicerces
Nestes poemas verifica-se que a escritora entra num tipo de poesia experimentalista . Alguns estudiosos do seu trabalho como Tacicleide , estudante brasileira do curso de Letras, procuram significados e explicações para questões relacionadas com a decomposição das palavras, à imagem de Fiama.
Esta estudante foi buscar a palavra «Título» integrado na obra da escritora, desmembrando-a e dando-lhe características muito curiosas, não podendo eu confirmar se a poeta se identificaria com tal abordagem, no entanto considero-a bastante oportuna . Aqui apresento então esse «esmiuçar» da palavra:
(Ti)(tu)(lo), junção de de três pronomes: (Ti=a ti) (tu=a tu ) (lo=a ele). Dois na segunda pessoa do singular e o último na terceira pessoa do singular..

Outra das várias actividades praticadas por Fiama foi o teatro, trabalhou com o Grupo de Teatro da Faculdade de Letras, estagiou no Teatro Experimental do Porto e frequentou um Seminário na Gulbenkian.
Em 1974 foi uma das fundadoras do Grupo Teatro Hoje e escreveu temas teatrais como: Os Chapéus de Chuva, O Testamento, Quem Move as Árvores, e outros.
Como prosadora apresento o título de alguns dos seus livros: O Retrato, Falar sobre o Falado, Movimento Perpétuo.
Integrou várias antologias em Castelhano, Francês, Inglês e Italiano.
Em relação à sua produção poética (a mais referenciada neste trabalho), escreveu várias obras como: Morfismos, Barcas Novas, F de Fiama, Três rostos, e outros.
Curiosos do seu estilo e temática consideram que a poeta passou por duas fases: A primeira iniciou-se com Morfismos continuando com Era, Matéria e o Nome Lírico. Nestes trabalhos tudo é experiência e novidade.
Para uma melhor compreensão podemos comparar este estilo literário ao experimentalismo musical de Stravinsky, Belá Bartok, Sergei Prokofiev, radicalizado com os mais recentes Schoenberg, Pierre Schaeffler e John Cage.
Estes compositores começaram por misturar sons melodiosos, muitas vezes de raiz clássica, com electrónica e outras técnicas. Considerava-se e ainda hoje se consideram experiências de laboratório. A evolução deste estilo musical chegou aos extremos de registar ruídos de portas, da natureza e da cidade. Com a pintura e a escrita sucedeu o mesmo pois não podemos dissociar as várias formas de arte.

A poética experimentalista da qual Fiama Hasse foi embaixadora não fugiu à regra . O estilo é informal e a palavra é o centro do poema, muitas vezes isolada e sem pontuação.
A metáfora é bastante utilizada e ainda abrange, em si, características surrealistas, visto que tal como neles predomina uma camuflada ou ausência de lógica na articulação das imagens, as emoções são reprimidas, o «eu» não pode aparecer e se aparece terá de se diluir no todo do poema.
A escritora deu importância primordial à imagem. Como ela dizia, pode-se pensar por imagens, logo estas são tão verdadeiras como as palavras.
GRAFIA 3
Tempo
digitado para as direcções do vento
A orgia dos gráficos nos prolonga
nossos cabelos cronometrados
O virgem com pinheiros nos olhos
morte
O ovário contínuo onde escuto os objectos
e os transmito nos dedos
Sem margem delta boca
ó mulher circular permeável ao vento
Virgem com pinheiros nos olhos
fêmea com nervos e dunas iguais a explosões
Invoco a madeira o limo o tempo
e entre ventos construo teu abdómen fixo
A segunda fase de Fiama já se reveste de poemas completos, não fragmentados como os da primeira fase. O poema torna-se mais simples, mais comum , de certo estilo prosaico e maior elegância sob o ponto de vista estrutural onde o experimentalismo já se mostra pouco relevante. O «eu» continua a não ser questão central, mas vai surgindo uma forma de poesia com características pessoalizadas sem nunca minimizar a imagem sob o ponto de vista literário.
Verso Vão
Onda de sol, verso de ouro,
perífrase vã. Extasiar-me,
antes, por esta fusão,
mistura de brilhos. Ou, ainda
mais íntima, a consciência
extensa como o céu, o corpo de tudo,
semelhança absoluta. Respirar
na quebra da onda. Na água,
uma braçada lenta
até ao limite de mim.
CEIA
Nesta sala vivemos. Todos
no mesmo despojamento
da matéria. Aqui os meus dedos
agarram puras ideias de coisas.
Em volta estão sem luxúria
as figuras.
Esta autora recebeu vários prémios. Eis alguns:
1961 – Prémio Revelação de Teatro (Sociedade Portuguesa de Escritores)
1975 – Poesia, Prémio Casais Monteiro (Sociedade Portuguesa de Escritores)
1986 – Prémio de Poesia (Pen Clube)
1996 – Grande Prémio de Poesia (Associação Portuguesa de Escritores).
Muito mais havia para dizer sobre Fiama Hasse Pais Brandão. Ela é um mundo labiríntico de temas, mas para terminar gostaria de deixar aqui um curto apontamento sobre a forma como ela encara a mulher sob o ponto de vista social, assunto mais trabalhado nas obras Barcas Novas e Nome Lírico.
A sua postura pouco tem a haver com as suas contemporâneas e parceiras em Poesia 61, Maria Teresa Horta e Luíza Neto Jorge. Fiama não valoriza muito o aspecto sexual em relação a todo um conjunto civilizacional e, quanto a mim, até será das três a mais conservadora.
Ela põe o homem na guerra e a mulher a defender a sua casa e família, se necessário com o seu instrumento de trabalho e ganha pão como a pá da famosa Padeira de Aljubarrota ou a valentia demonstrada por esta personagem.
Considera que há os que são a favor da guerra cuja maior percentagem são os homens, e os que são contra a guerra onde predominam as mulheres, saindo estas da sua fragilidade feminina mas continuando femininas no sentir e no agir. E se me é permitida a opinião, fiquei bastante admirada com esta forma ainda tão tradicionalista e tão pouco inovadora da sua posição em relação à mulher, pouco tendo a meu ver, com a sua forma revolucionária de escrita , mas o importante é apreciar o todo da sua obra como um marco valiosíssimo para a cultura portuguesa.
A MULHER DOBRADA
A mulher
que não canta
entretanto
cantá-la-emos
(...)
Cantemos
por a tolher
o pranto
dobrada
sobre o tampo
que a magoa.
Liliana Josué
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