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Raizonline entrevista o produtor e realizador cinematográfico Julião Silvão Tavares (Cabo Verde)
Veja a biografia do entrevistado e o inicio deste trabalho desde o seu início
Raizonline (RO) : Julião Silvão, porque razão na sua opinião não existe o hábito do Cinema em Cabo Verde?
Julião Silvão (JS) : Bom, não é bem assim. Temos de separar as coisas. Se for hábito de ver cinema, os cabo-verdianos têm uma longa tradição de ver cinema. Lembro-me na minha adolescência e juventude a correria que se fazia para se tomar posição dianteira nas bilheteiras, principalmente nos filmes americanos e indianos, as longas discussões em quase todas as esquinas a respeito dos filmes e dos actores.
Mas também lembro-me dos mais velhos a contarem histórias de filmes antigos,
de actores e realizadores da época. Claro, tudo isso, estou a falar de um
país como Cabo Verde, na altura certamente com cerca de 300 mil a 400 mil
habitantes, descolado do corpo do continente africano, secundarizando pela
metrópole em outras coisas quanto mais o cinema que mesmo em Portugal já era
atrasado e condicionado.
De ponto de vista de fazer filmes, isso já era mais complicado, a história nos diz que esporadicamente nos dois maiores centros urbanos do país, Praia e Mindelo, houve sempre pessoas intentadas em produzirem filmes com equipamentos amadoras, câmaras super 8 e outras, mas, não tiveram muito êxito por inexperiência e perseguição do regime de então que via no cinema algo de subversivo.
Resumindo, Cabo Verde sempre sentiu-se obrigado a periodizar outras coisas em detrimento da cultura para sua própria sobrevivência, e neste particular da cultura o cinema sempre funcionou em termos de projecção de filmes, primeiro nas comunidades, nos primeiros anos da independência, depois nas salas com criação de um instituto de cinema que fazia gerência de importação e exibição de filmes.
Hoje há uma relativa mudança de comportamento que continua a ter decisões tremidas, mas, comparativamente, em relação a pelo menos 20 anos à traz, há uma tendência de aproximação do publico às salas.
RO: Porque razão sabendo você, e seus colegas certamente, que não existe esse hábito fomentam o surgimento do mesmo através de iniciativas de Cinema Aberto? Não fica com alguma sensação de frustração por ver que os resultados não seguem o esperado?
JS : Acho que a iniciativa do cinema aberto, uma actividade da minha produtora, a Silvão - Produção, Filmes, contribuiu bastante para melhoramento ou uma certa reaproximação e aproximação das pessoas ao cinema. Era necessário levar o cinema às comunidades de Bairros e escolas, fundamentalmente escolas, com filmes educativos, uma forma de se aproximar o cinema aos cinéfilos, para mais tarde o efeito ser contrário, tenho a sensação que o efeito é muito positivo, a comunidade tem vindo ao encontro do cinema de forma tremido por razões extra produção ou exibição de filmes, mas paulatinamente a população tem ido ao seu habitá, às salas.
Hoje em dia há instituições nacionais e não nacionais a enveredarem na mesma linha, ir às comunidades a apresentarem filmes. Isso quer dizer que esta pratica está a surtir efeito porque já se realiza semanas de mostra de filmes, com assistência muito razoável e está-se a pensar em festivais. Ainda não conseguimos chegar aonde pretendemos, acho que é necessário um grande envolvimento das instituições públicas, particularmente as que têm responsabilidade cultural, para que amanhã possamos ter uma boa colheita.
RO : O Cinema Cabo-verdiano, pelo menos no que li de seu, tem um forte engajamento político / social: as suas temáticas estão quase totalmente relacionadas com a luta de Libertação tanto em Batuque como no Tarrafal, por exemplo e se bem que a ficção que refere tenha como fito a luta contra o tráfico de droga, as conotações políticas dessa mesma luta são evidentes com o fenómeno político, especialmente tendo em conta aquilo que tem lugar na Guiné Bissau. O cinema não segue os caminhos da «evasão» tal como a música cabo-verdiana… não considera que haja lições históricas a tirar desse campo?
JS : Acho até certo ponto que sim. Repare, Cabo Verde durante toda a sua existência conviveu com situações de sobrevivência e de resistência. São os assaltos dos piratas, as sucessivas secas e fomes, emigração forçada como escravos para S. Tomé e Príncipe e Angola, a luta de sobrevivência de milhares de cabo-verdianos nos cinco continentes, a luta para liberdade e independência das ilhas, a luta para a construção do país independente que arrasta consigo diferentes combates extremamente difíceis, repare que somos um país que tem somente três meses de chuva e de forma irregular e há anos que costuma não cair nenhuma gota de água e situado em pleno Oceano Atlântico a certa de 450 Kms da costa africana, com agravantes de ser composto por ilhas relativamente distantes uma das outras e cada um com o seu problema, com a sua especificidade.
Isso
para dizer que o nosso visual fílmico tem de ir ao encontro da nossa
vivencia, da nossa historia que ainda é mal conhecida e muitas das vezes mal
contadas. A nossa vivencia é de constante luta, de constante resistência e
dentro desta luta, desta resistência ainda quase nada foi levada a tela,
temos muito espaço fílmico ou potencial espaço fílmico a explorar. Ainda há
muita virgindade, mas tamb��m, há muitas coisas que precisam de ser contadas
e bem contadas.
RO: Reparei que pede ou exige a criação de um Instituto do Cinema, que seria financiado com meios públicos. O objectivo do mesmo, ao que penso, seria o de financiar a produção nacional, pelo menos parcialmente. Neste período de crise internacional acha que seja viável um maior dispêndio de dinheiros públicos com uma actividade, a cinematográfica, que é sobretudo um investimento «de bandeira», ou seja, que serve para prestigiar Cabo Verde e que não tem retorno financeiro razoável?
JS : Na minha opinião esta é altura ideal de se investir no que dá visibilidade ao país e, a cinematografia, mais do que qualquer outra ária, garante visibilidade e garante uma visibilidade duradouro.
Sabendo que se trata de momento de crise, da nossa parte devemos ter um comportamento razoável a respeito do orçamento, quer dizer, adaptar o orçamento ao momento, sem prejudicar a qualidade do produto.
Eu creio que se por acaso Cabo Verde é conhecido hoje no mundo, tem a visibilidade que tem, tem o reconhecimento que tem, também é graças ao cinema e ao audiovisual que fez multiplicar as suas paisagens, a sua cultura, a sua importância geográfica, a morabeza das suas gentes, a beleza das suas paisagens, também a sua história secular, o seu contributo ao formato de histórias de tantos países em diferentes continentes, tudo isso proporcionado pelo cinema e audiovisual, dá-nos a visão de quanto é importante esta área.
Se considerarmos tudo isso, se reconhecermos a importância do cinema e do
audiovisual e se reconhecemos de que Cabo Verde mudou e mudou para melhor,
se tivermos em conta o momento de partida e a posição que nos encontramos
actualmente como nação independente e principalmente o reconhecimento como
país de desenvolvimento médio, certamente concluímos que o retorno
financeiro é bastantissmo razoável, mas, o cinema infelizmente continua a
ser parente pobre dos decisores políticos.

E necessária uma maior intervenção nesta área, é necessário clarificar o que queremos com o cinema, criar bases necessárias, fundamentalmente legislativo, criar melhores incentivos e credíveis, regulamentar o sistema de financiamento e criar concursos credíveis para acesso aos fundos de produção cinematográfico, é necessário saber quem é quem nesta área, é necessário um reconhecimento desapaixonado e continuo da importância desta arte para o desenvolvimento do país.
RO : A cultura Cabo-Verdiana é uma cultura mesclada por anos de colonização e pelo aparecimento de especificidades locais que não vinham à tona como é o caso do Batuque. Contudo o Batuque é uma forma de expressão tipicamente africana continental, com fortes conotações com a coloração negra ou com o espírito negro do interior africano.
Ao mesmo tempo o seu percurso que conheço (veja-se o Tarrafal - UNIDOS PELA MESMA CAUSA) apresenta um certo saudosismo da unidade de Amílcar Cabral «Guiné – Cabo Verde». Não considera que essa utopia esteja já encerrada e até esquecida e que no fundo não tenha valor senão como documento histórico e logo de acesso restrito?
RO : Do meu ponto de vista não. A história se constrói por factos, por acontecimentos, mas, por factos de um dado momento, com acções realizadas e analisada de acordo com o momento, muitas vezes com olhares futuristas. As acções para serem bem sucedidas são necessárias que nelas acreditemos e o contrário pode ser um suicídio.
A Unidade Guiné Cabo Verde arquitectada por Amílcar Cabral foi construída com base em semente fortes da história dos dois países e continha ingredientes fundamentais para ser bem sucedida. Fazia todo sentido um filme nesta direcção que poderia trazer à tona os verdadeiros motivos dessa machada no grande projecto de Amílcar Cabral e que poderia servir de exemplos.
Do meu ponto de vista, tomando este projecto de unidade como utópico é a
mesma coisa que considerar utópico a Unidade africana e seria a mesma coisa
considerar utópico a União Europeia nos primeiros momentos da sua discussão.
Respeitante ao meu filme em referência com o título final «O Sonho de
Liberdade», do meu ponto de vista é um filme que deve merecer muita atenção
da nova geração, aliás tem merecido em partes, por se tratar de uma parte da
história de Cabo Verde, da coragem principalmente dos camponeses da ilha de
Santiago e de Santa Catarina em particular, motivados pela exploração
agrária e repressão do colonizador.

Mas também é um filme que levanta alguns véus a respeito tanto dos motivos e formas de participação dos diferentes assaltantes do navio pérola do oceano como da organização política clandestina em Cabo Verde e a própria forma de reconhecimentos destes corajosos como combatentes da liberdade e da pátria. Acho que é um filme que se pode ver, analisar e estudar em qualquer sítio. Pode servir de referência de documento histórico sim, mas, de acesso livre.
RO: Assim e para finalizar como pretende conciliar no plano táctico – estratégico a criação de espectadores para Cinema (que existem noutros campos como a tão prestigiada música cabo-verdiana) com o documento histórico – político tendo também em conta que o afastamento da coisa política da parte das populações mais jovens é crescente…
JS: A crise de audiência no cinema é geral. Recentemente estive em três festivas na Europa e em países diferentes, deparei com essa situação. Todo o mundo está a busca de uma solução da falta de cinéfilos nas salas de cinema. Uma certeza tenho, não há uma varinha mágica que com um toque se pode resolver. É uma situação geral, mundial e que todo o mundo está a procura da resposta.
Em Cabo Verde o nosso propósito, falo da minha pessoa e da minha produtora, é continuar a levar o cinema às comunidades de Bairros e escolas como forma de resgatar os que perderam o hábito e influenciar a nova geração. Para isso é imprescindível a parceria do ministério da cultura e da Educação. Mas estamos atentos a outras experiencias que podem vir a ser bem sucedidos e adaptá-los à nossa realidade.
E fundamental na nossa área evitarmos misturar as coisas. A política é muito importante para todo o mundo, mas, a politiquice mata e não deixa rastos. Na nossa área não devemos tomar partido, devemos apresentar os factos e deixar que as pessoas tirem as suas conclusões, façam as suas leituras.
Ter sim, como é natural, apresentar uma visão do realizador, deixar que as personagens comuniquem livremente com outras personagens e assistência. A população gosta de ver a sua vivencia, o seu dia-a-dia, algo muito interessante que muitas das vezes não tem consciência de quanto é lindo, é só ver na tela.
Os maiores agradecimentos do Jornal Raizonline ao realizador e produtor Julio Silvão Tavares (Julião Silvão) por esta oportunidade que deu ao nosso jornal RAIZONLINE de mostrar pelo menos parte da realidade cinematográfica de um país como Cabo Verde e desejos das maiores felicidades na continuação da sua carreira.
Entrevista elaborada e comentada por Daniel Teixeira com a colaboração de João Furtado