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Protestos, nudez, e comunicação - a bunda à mostra resolve tudo?

 

Por Se Gyn

Zapeando pelas mensagens de e-mail, encontrei uma nota enviada por uma colega, falando de um flash mob ocorrido nos EUA, denominado «No Pants Day». Leiam.

 

«Passageiros andam só de cueca e calcinha no metrô nos EUA. Apesar das temperaturas baixas e do rigoroso inverno no Hemisfério Norte, usuários do transporte público em várias cidades passaram o domingo sem as calças em trens urbanos.

Tudo isso graças ao «No Pants Day» (ou «Dia Sem Calças»), uma brincadeira coletiva que começou em Nova York em 2002 e já está na sua nona edição.

Os organizadores do evento, o grupo Improv Everywhere, afirma que três mil pessoas participaram da brincadeira em Nova York. O evento também já se espalhou por mais de 43 cidades em 16 países.»

Não consegui achar a fonte do texto, mas, segundo o que andei lendo na Internet, a idéia por trás da iniciativa é colocar nas ruas e meios de transporte de massa, pessoas sem as calças, se comportando de maneira usual, com o intuito de quebrar o tabú urbano do uso de roupas - isto é, uma pequena bobagem supostamente bem humorada.

Digo bobagem, porque a roupa, em todos os sentidos, não pode ser considerada menos que uma conquista e sinal de civilização.

O flash mob é um tipo de manifestação intimamente ligado à cultura internética - e constitui em manifestação organizada através das redes sociais da web, que resultam no ajuntamento de interessados e realização de um evento de curta duração, em um lugar previamente estabelecido.

Os objetivos dos flash mobs podem ser os mais diferentes, desde o protesto, a homenagem, a dança ou, mesmo, a realização de uma brincadeira de crianças, mas a finalidade parece ser a mesma - a simples e breve celebração do encontro de pessoas com um mesmo gosto, vontade ou afinidade.

Mas, o evento que citei envolve uma tipo específico de atitude em público - a exibição do corpo quase nu, em público.

E é disto que quero tratar. Virou moda a manifestação individual ou coletiva em favor das mais diversas causas (inclusive públicas) com a prática do nudismo. E eu tenho tentado entender a razão pela qual, pelas mais díspares causas, as pessoas tem preferido a nudez ao discurso e atitudes convencionais (reunião em público, palavras de ordem, protesto, etc. ).

O leque de opções de expressão não é o bastante? As pessoas não sabem mais se expressar de uma forma usual - com a fala, gestos, e expedientes assim? Ou é só através da provocação da surpresa, do choque, do asco ou horror, que é possível chamar a atenção?

Ouço dizer há algum tempo que o discurso formal e os meios usuais de manifestação - aí, incluidos, a articulação de pessoas e entidades, e as marchas e protestos estão superados ou falidos, em razão da sua ineficiência, num mundo soterrado de dados, causas e informações.

Mas, será verdade?

Não faltam exemplos de campanhas bem sucedidas, resultantes da utilização de meios usuais de articulação. Um exemplo: a Lei da Ficha Limpa, que a despeito do questionamento de sua constitucionalidade, veio a ser aprovada depois de uma intensa articulação de entidades sociais e, a sua divulgação e utilização da Internet.

O que há, então, atrás dessas justificativas incompletas?

A recorrente alegação da falência dos meios e discursos tradicionais, oponho a afirmação de que o que faliu foi a competência do titular do discurso.

De fato, não basta que alguém tenha idéias relevantes para provocar mudanças. Se ele quer alcançar provocar transformações, precisa de um discurso coerente e, ainda, de eficiência na exposição das suas idéias e ter ainda, uma boa estratégia de disseminação das suas propostas.

Não é facil reunir numa pessoa ou grupo, todas essas condições. E alcançar adequada competência depende, em parte de estudos e, treinamento. A improvisação pode até adiantar as coisas, mas no fim, pode levar a resultados irrelevantes.

E com inteligência e capacidade, não é preciso tirar a roupa para atingir objetivos - mesmo que este seja só diversão.

Então, porque essa insistência na prática do nudismo, como forma de protesto? Suponho que seja, pelo fato de chamar imediatamente à atenção, em virtude de se constituir em algo inusitado, algo ofensivo ou mesmo chocante, para boa parte das pessoas - que têm uma mentalidade muito diferente da de Larry Flint.

Mas, não há dúvida de que o nudismo é uma eficiente muleta para substituir o discurso formal, coerente e, eficiente, já que, a despeito da deficiência de transmissão da idéia visada, tem uma interessante vantagem: fora do campo moral, há uma certa dificuldade de avaliá-lo, no sentido de eficácia.

Um exemplo: alguém quer protestar contra a matança de baleias e bota numa praça de Paris uma dezena de top models peladas, ao lado de cartazes do Green Peace. E claro que um protesto desses chama à atenção. Mas, a questão é: vendeu o peixe? Comunicou a idéia? Ou foi só mais um daqueles factóides que vai ser devorado pela imprensa e imediatamente esquecido pela população?

A utilização do nú em protestos, em certa medida, também está relacionado ao culto do corpo, atualmente levado aos extremos e, na própria e desesperada transformação do corpo num outdoor pelos indivíduos, empurrados pelos estímulos vindos do mundo dos negócios, da publicidade e, das comunicações.

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E voz corrente, hoje em dia, que, não basta ser inteligente e, competente - é preciso transmitir essa idéia, vestindo-se e portando-se conforme, sem embargo de pessoas do calibre de Sthefen Hawkins não se encaixar no modelito, a despeito das qualidades próprias...
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De volta ao evento inicial: alguém está dentro do vagão do metrô a caminho do trabalho e, de repente ocorre a invasão de um bando de gente que se acha esperta, à bordo de cuecas e, calcinhas. Supondo que ele desconhece o evento ou o seu suposto objetivo, o que lhe parecerá?

Não imagino que os organizadores pensem seriamente em propor a abolição do uso das roupas, ou pior, que as pessoas convivam em público vestindo somente cuecas e calcinhas (e, nem vou elencar os diferentes prováveis e mais variados inconvenientes envolvidos - mas pergunto: você gostaria de ver o seu chefe o dia todo de cuecas?).

No fim das contas, esse flash mob é um daqueles eventos de natureza inconsequente, típico de quem não quer aparecer, se recusa a pensar muito.

Não, não sou contra a nudez. Só estou discutindo a sua utilização como, digamos, ferramenta de comunicação, ok?
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De todos os flash mobs que pude ver na Internet, o que mais gostei foi um que ocorreu em Kiev, na Ucrânia, onde as pessoas foram convidadas para dançar na rua uma música do grupo Back Street Boys, a quente e empolgada «Everybody».

E o pior de todos os flash mobs realizados no mundo deve ter sido aquele da guerra de travesseiros realizado em São Paulo no ano passado - meia dúzia de manés apareceram para se espancar de mentirinha. Nem o apoio de uma rádio FM e a cobertura da turma do «Pânico na TV» conseguiu levar gente ao fracassado evento.

Se Gyn

 

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