| pagina seguinte |
| poesia |
| cronicas |
| contos |
| cultura |
| educação |
| agenda cultural |
| humor |
| ambiente |
| solidariedade |
| assuntos europeus |
| ciência |
| tecnologia |
| colunas/empresa |
| biografias |

COLUNA POETICA DE MARIA PETRONILHO

Solto Poema - Poema - Amêndoa - Poema - Da minha janela - Crónica
Solto Poema
sobre o branco do papel
a pluma breve pousou
sangue azul
espaço a espaço derramou
e mesmo que não querendo
uma letra depois outra
fez-se livre
fez-se leve
tal melodia
o poema
foi nascendo
em instantes se elevou
ecoa na nossa alma
vivo sangue
ave eterna
...que jamais desalentou.
Amêndoa
na amêndoa
a doçura
das terras do sul
da neve da primavera
onde não neva
na amêndoa
a flor branca e branda
herança da arábia
prodigiosa
aroma
de amêndoa amarga
cianeto de incerteza
na saudade da lonjura.
Da
minha janela
Crónica
De manhã vê-se o céu vermelho, por cima das vivendas baixas, para os
lados da Ponte, dourando a cúpula do Seminário.
Aos poucos desce uma poeira amarela e brilhante cheia de matizes,
recortada pela escura sombra das velhas casas brancas, cor-de-rosa e
amarelas. A frente de cada prédio há um jardinzinho onde cada um nos
mostra o que terá dentro de si: Cultivam-se couves, flores ou crescem
ervas bravias.
Muito cedo tudo recende um particular aroma que não existe em mais
nenhum lugar da terra e reluzem indistintas sobre todas as plantas, como
pérolas, gotas de orvalho.
Depois começa a passar gente: primeiro os operários, com a pasta do
almoço na mão, depois os estudantes com os livros debaixo do braço. O
sol aquece e a água depositada no chão e nas ervas evapora-se. As
plantas parecem agora baças e empoeiradas.
Os rapazes e raparigas das escolas secundárias parecem um carreiro de
formigas atentas e carregadas de uma ciência escondida.
Apitam as sirenes das fábricas.
Mulheres de cestas de verga ou ráfia apressam-se para as compras, os
carros sentem-se incomodados na estreita linha entre os passeios e
apitam...
Sai de cena o guarda - noturno com o seu molho de chaves tilintando à
cinta e os olhos cobertos de sono. Outro aparece, ao que parece pela
ordem pública nada mira, e anda rua acima rua abaixo passeando a gorda
barriga, as mãos inermes cruzadas atrás das costas.
A meio da manhã, parafusos e engrenagens rolam, acalmam-se os ruídos,
gira que gira o dia. Pelo meio dia salta a manivela e toda a gente corre
que a barriga chia. De tarde, a rua na modorra vai cumprindo hora após
hora o seu ritual, sonolenta.
As persianas baixas. As vizinhas lavaram a loiça e espreitam como gatas
atrás das cortinas. Um ou outro par afoito desafia o comentário certo.
Num repente cai a noite, mal o sol tomba atrás do prédio mais alto.
Aproveitando a súbita penumbra, quem não olha não vê, os estudantes de
regresso a casa, chegam-se mais – ele e ela murmuram algo e lá se
dissimula na sombra a fugaz papoila de um beijo.
Os mais novos chispam centelhas de desafio no cigarrinho escondido na
palma da mão; endireitam o pescoço enquanto pigarreiam a virilidade
emprestada pelo gesto enfim ousado.
Muitos vão sobrecarregando os livros de cabeça baixa, como muares
ruminando fora de hora cada palavra proferida na aula – levam toneladas
de sabedoria às costas e parecem subir a rua de rastos.
Os marinheiros, colarinho azul e branco, barrete atirado para a nuca,
parecem com fome de vento e passam assobiando. Um clarão amarelo, depois
branco, hesita mas fica – os candeeiros acendem-se lá no alto.
Sobe de todos os lados um aroma de guisados, se cozidos, de frituras que
se misturam no ar a brincar ao desafio com as barrigas vazias. Num
tempo, o primordial desígnio de viver para para comer ou o inverso, fica
reinando. Adivinha-se o nham nham nham mascando uns melhor outros pior o
que tanto lhes custou a alcançar – jantar na mesa a horas das
ave-marias.
Descem os sacos do lixo, que são discretamente colocados na beira do
passeio e as mãos escondem-se atrás dos aventais como se assim se
aventasse o olhar do último a quem se imita o gesto.
Era a hora por que os cães e os gatos vadios tanto esperavam – num
instante a rua vazia está pejada de restos e seres furtivos e
desconfiados, lazarentos, desgraçados.
Acenderam-se entretanto os olhos amarelentos das janelas. Cada um
cala-se ou comenta o que fez – sobretudo o que não fez e gostaria de ter
feito mas mais não se diz porque falar demais é um papão que anda solto
e pode estar escondido dentro do seio do teu parece - que - melhor -
amigo.
Uma a uma cada casa adormece – o cansaço às vezes traz consigo a insónia
– mas que remédio para poupar energia senão rebolar-se a insónia onde se
rebola a rebeldia – no escuro?!
Os últimos carros deslizam, à larga, ninguém que os ameace de
atropelamento nos passeios desertos.
E tudo é silêncio. Excepto os mais fracos que berram na voz do vinho o
que a todos atravanca o espírito mas só diz em voz alta o bêbado e em
voz muito baixinha o que bebeu tanta esperança para mitigar a dor da
revolta que se atreve a infringir o universal da quietude do
faz-de-conta.