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A COLUNA DE JORGE M. PINTO
CASOS
AO ACASO
Obstipação - Um mínimo de Decoro !!!- Bons Modos - Depoimentos
Obstipação
- Foi substituído o governador, por um outro muito mais discreto e menos
eficiente.
Depressa o povo o cognominou de «O prisão de ventre».
Porquê ?
Porque o outro (o antecedente) sempre ia fazendo umas merdinhas !
Um mínimo de Decoro !!!
- Um administrador já aposentado, (portanto no mínimo e na altura com 65 anos) usava mosca (pequeno tufo de pelos que deixava crescer sob o lábio inferior) e por essa razão grangeara a alcunha de O Pêra d’Aço . (Esqueci ou mesmo nunca lhe soube o nome, do mesmo modo que só me recordo de Mendonça como sobrenome de outro, alcunhado de O 30 Cabelos, ou simplesmente 30, por tratar com doentio desvelo os pouquíssimos fios que lhe restavam da antiga cabeleira.
Dele se dizia até que, por ter um feitio difícil – cruel mesmo - na verdade deveria ser conhecido como O 31, porque além dos 30 cabelos que lhe restavam na cabeça teria também um no coração ! )
Mas, voltemos ao Pera d' Aço:
Este tinha por hábito coçar, alisar ou puxar com delicadeza mas constantemente a
sua mosca.
Em tertúlia, estava um dia relatando – com evidente exagero - algumas das suas
aventuras sexuais mais recentes, como de costume não deixando de afagar o
enfeite, quando um dos presentes saturado das suas bravatas e exageros lhe diz:
Transa com quem tu quiseres, as vezes que quiseres, do jeito e nas posições que
quiseres. O que não deves, nem podes é estar a coçar permanentemente o saco
enquanto conversas conosco.
Bons Modos
- Um chefe de posto só, no seu jeep, devidamente fardado, mas desarmado e temerariamente (vivia-se «a guerra» -1965) cumpria um trajecto em que com alguma freqüência se sofriam emboscadas.
Tendo chovido copiosamente, à passagem de certo riacho – a vau - não hesitou: tentou e o riacho a tanto se opôs.
Fora do trilho habitual, a viatura assentou ambos os eixos e não houve forma de
dali a remover nem com o recurso à tracção dupla e reforço de que dispunha.
O chefe, resolvido a aguardar pacientemente o abaixar das águas para então de
novo tentar safar o carro, reparou num grupo de seis africanos que, a cerca de
300 metros, estáticos, mais ou menos encobertos pela densa vegetação o
observavam.
Com gestos os chama, e, ao alcance da voz lhes vai dizendo do seu desapontamento por o terem visto em dificuldades e não terem esboçado o mínimo gesto de auxílio como seria normal.
Decidido, e com voz segura, manda que o ajudem a desatolar a viatura, pois tem pressa e necessidade de chegar prontamente ao seu destino.
Os africanos (uma célula de guerrilha estudando local de emboscada?) obedientes, depõem armas e unindo esforços libertam o carro. Com amistosas saudações, chefe e guerrilheiros se despedem. Um agradecido os outros com a noção do dever cívico cumprido.
Chegado ao destino, o chefe, tremia como varas verdes e entrou em colapso
nervoso.
Ainda hoje deve estar vibrando......vibrando......
Depoimentos
Meras quezílias ou mesmo graves questões familiares relacionadas com casamentos e divórcios, heranças e partilhas, negócios e/ou simples acordos entre os nativos angolanos, normalmente tinham raízes muito profundas que, as mais das vezes, se situavam distantes várias gerações.
. Assim é que, não raro, uma qualquer desavença do presente se fundamentasse em
factos passados há três, quatro, ou mais gerações atrás..
Por esta razão, quando «a maca» ou «a endaca» (leia-se questão, discórdia,
desavença) era levada à presença da autoridade que havia de a dirimir, os
desavindos já tinham entre si discutido vários dias, semanas, meses ou até anos,
e recorrido à sabedoria do próprio Soba.
Ao Chefe de Posto – como Juiz de Paz, e ao Administrador de Concelho como Juiz Municipal - cabia tudo ouvir e sobre a causa prontamente ditar sentença observado o Direito Consuetudinário.
Em consequência, a audição de testemunhas, era fase muito delicada e por vezes muitíssimo demorada do julgamento, em que todos os envolvidos historiavam toda a questão segundo a sua perspectiva, a partir das mais distantes notícias ou recordações...
Chefe de Posto novato e pouco experiente nestes assuntos, ao fim de uma boa hora
em que assistia ao ininterrupto monólogo de um dos envolvidos (que não falava
português e, consequentemente se dirigia à autoridade por intermédio de
interprete) aproveitou uma breve pausa / hesitação do relator e imaginando ter o
declarante / queixoso terminado as suas alegações, dirige-se ao interprete
pergunta:
- E então ? O que é que ele disse ?
- Por enquanto ainda está só a falar. AINDA NAO DISSE NADA ! foi a pronta resposta do interprete. Na verdade, o queixoso, até ali, tinha-se limitado ao historial de uma parte apenas de quantos antecedentes julgava necessário mencionar, para dar suporte ao julgamento final do Chefe de Posto a quem por sua vez cabia proferir a sentença, ou cortar a questão, como diziam os desavindos.
OBS: Este episódio, embora do meu conhecimento, só para aqui foi transportado por indicação do meu muito querido amigo Dr. FERNANDO PATRONILHO D’ARAUJO, que fez a gentileza de dele me recordar. Os melhores agradecimentos.
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