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Poemas de Liliana Josué

Hei-de Rasgar Meu Caminho - Vidraça - Abstraccionismo Temporário - BRANCO QUE FERE
Hei-de Rasgar Meu Caminho
Rasguem-me as roupas da alma
esburaquem meu coração
retracem-me o pensamento
diluam meu ser no ácido da aridez
que hei-de obstinar-me em viver
na teimosia da permanência
força da resistência
por ser gente
por ser eu.
Mesmo que o escarninho mundo
não queira
e me atropele a navegação
dos pensamentos
hei-de seguir meu caminho
cuspindo todo o desdém
e até raiva
pelos iluminados desta civilização.
Podem todos atirar-se
à fúria do mundo competitivo
onde a liberdade é refém
dos esgares duma loucura
que se esconde no momento persuasivo
da vitória entre os outros;
os de mente dita escura
sem horizontes prodigiosos
muito para lá do além.
Deitem-me pois na valeta
torturem-me a carne rija
ou matem-me se quiserem
que o meu não é nota certa
ao vergar que se me exija.
Vidraça
Pela vidraça do mundo
corre a minha imaginação
e vejo coisas...
Uma montanha jorrando labaredas de emoções
um rio correndo de baixo para cima
buscando o inalcançável, mas tenta...
um braço de arvore estendendo-se para mim
sendo seus galhos dedos que me apertam.
Vejo ainda beijos soltos no ar
poisando na minha boca como pássaros vermelhos.
Dois corações, lado a lado
são levados pela brisa da minha imaginação
refrescando-se no rio persistente
indo depois poisar na montanha em labaredas.
A vidraça ofusca-se com o calor da minha boca
limpo-a de punho cerrado.
E noite, as estrelas não brilham
mas a lua é uma enorme rosa azulada
doce e macia.
Suspiro, desvio os olhos da vidraça
e permaneço espectante.
Abstraccionismo Temporário
Vácuo
Distúrbio
Medo...
Ânsia transbordante
Céu sem cor
Nem credo
Dedo
Que apontou
E destruiu.
Alma de entranhas ao sol
Secura
Dura.
Olhos cegos... olhos cegos...
Atraindo a claridade
Mas esta
Sem caridade
Tudo ofuscou
Na crueldade
Desse brilho
Que espalhou.
Sentido perdido
Dor derradeira
Acto esfumado
Seta certeira.
Canto incontido
Desesperado
Em tom rasgado
E muito ferido.
Ombro certo que fugiu
Lágrimas
Rolando
No chão.
A treva caiu...
Lástimas
Ecoando
Resignação.
BRANCO QUE FERE
Uma praia branca
espreguiça-se infinitamente...
é brancura que fere
na sua pureza.
Tudo tão terrivelmente branco
Um raio se sol desmaia
rendido
os olhos escondem-se
numa aflição tentadora.
O coração bate com força
a alma torna-se chama
A vida vacila.
Miragem de esperança
e medo.
Brusco
Brilho
Branco.
Liliana Josué