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José Varzeano

Ver Pequena Nota Biográfica

Diogo Dias, um dos vários casos em que o antropónimo deu origem ao topónimo

Pequena nota:

No nosso périplo pelo concelho, nesta rubrica muito procurada pelos visitantes/leitores, vamos abordar hoje um «monte» da freguesia de Martim Longo onde ainda devem viver mais de duas dezenas de pessoas, o que começa a ser difícil de encontrar.
JV

Esta pequena povoação alcança-se a partir da aldeia de Martim Longo, sede de freguesia a que pertence, tomando a estrada nº 124.

Poucos quilómetros andados encontramos à direita um entroncamento que seguimos e hoje já asfaltado, o que não acontecia quando passámos por aqui a primeira vez.

Estrada com algumas curvas aparece-nos do lado direito um pequeno monte que já referimos e hoje desabitado, o monte do Silgado. Continuando o nosso trajecto, pouco depois descortinamos igualmente à direita uma povoação de maior dimensão e que se alcança por um pequeno desvio, igualmente asfaltado. A beira da estrada um abrigo apropriado para esperar por transportes públicos.

Como muitas vezes acontece, a referência mais antiga que possuímos da povoação é a que nos dá as Memórias Paroquiais de 1758, pois o pároco que respondeu ao questionário a indica, ainda que não refira e como fez a todas as outras, o número de vizinhos existentes. Todos os párocos das outras freguesias do concelho o fizeram, excepto este.

O seu nome é evidentemente um antropónimo transformado em topónimo e de que existem vários exemplos no concelho.

Por volta de 1970 um natural do monte e a nossa solicitação contou-nos a seguinte estória : - Em tempos que as pessoas não sabem situar, dois irmãos, o Diogo e o Pedro, herdaram grande fortuna pela morte dos seus progenitores. Cada um fixou-se no quinhão que lhe coube dando origem aos «montes» existentes com os seus nomes.

Isto é a estória arquitectada pelo povo, desconhecendo que por essas alturas só herdava o filho primogénito.

O nosso povo tem um poder de imaginação fantástico e para coisas que acabam por ser complicadas, resolvem-nas de maneiras muito simples, apresentando a «lógica» como a verdade.

Outro aspecto de Diogo Dias

O que parece não oferecer dúvidas é que o topónimo está relacionado com o antropónimo Diogo Dias, admitindo-se que possa ter sido um possessor após a conquista e ocupação cristã.

Sabemos que um Diogo Dias por mercê de D. João II de 28 de Agosto de 1482 foi nomeado Escrivão das Sisas de Alcoutim. (1) Cerca de dois anos depois, um Diogo Dias, que se admite possa ser o mesmo é nomeado por mercê do mesmo rei, em 30 de Junho de 1484, escrivão da «alcaidaria das sacas» de Alcoutim. (2) Tratando-se hipoteticamente da mesma pessoa ou acumulou as funções ou as últimas seriam -lhe mais vantajosas. Por estas alturas era vulgar a acumulação de funções deste tipo.

Mostra-se também curioso que o conhecido navegador Diogo Dias, possivelmente algarvio e irmão de Bartolomeu Dias, foi incorporado na armada de Vasco da Gama que partiu de Lisboa em 8 de Julho de 1487, com destino à Índia, como escrivão da nau S. Gabriel. (3)

Quem teria sido o Diogo Dias que deu o nome à pequena povoação? Homem simples ou importante? Quem sabe a verdade?

O enigma fica para os vindouros decifrarem.

A povoação situa-se num plano como sugere o planalto do Pereirão que estamos percorrendo.

A saída de alcoutinenses para o estrangeiro e para outras zonas do País mais evoluídas proporcionaram novos conhecimentos, que na primeira oportunidade foram postos em prática.

E é neste sentido que fomos encontrar vivendas que nada têm de paralelo com o tipo de construção local e a existência de uma pequena vinha, nova, aramada e tratada, o que a algumas décadas atrás era impossível imaginar.

Um pequeno largo possibilita-nos a manobra do veículo. E naturalmente o local onde tudo chega, principalmente o comércio ambulante representado entre outros pelo padeiro, peixeiro, merceeiro e quinquilheiro.

Uma pequena baixa está aproveitada agricolamente e onde os batatais eram notórios.

Ao Centro Recreativo local, que pensamos ainda existir, oferece a Câmara Municipal uma máquina de café para satisfazer a procura dos seus associados. (4)

Os arruamentos foram pavimentados em 1989 (5), tendo sofrido ajustamentos em 2001 (6) e 2004. (7).

A água ao domicílio é fornecida em 2003 (8), ainda que não possua saneamento básico.

A nível populacional o «monte» segue a regra geral do concelho. Com 77 moradores em 1911, vai subindo até 1960, começando a decair a partir daí. Em 1981 tem 55 habitantes descendo para quarenta e sete no censo de 1991.No último recenseamento (2001) tinha 35 habitantes, sendo 16 do sexo masculino e 19 do feminino. Hoje, poucos mais serão de duas dezenas.

NOTAS
(1)-PT-TT-CHR/J/1/3/560, Chanc. de D. João II, liv.3, fol. 53.
(2)–PT-TT-CHR/J/1/23/642, Chanc. de D. João II, liv.23, fol.143.
(3)–Dicionário de História de Portugal (dir. de Joel Serrão), II Vol., Livraria Figueirinhas, Porto, p 295.
(4)-Boletim Municipal nº 4 de Abril de 1989.
(5)-Boletim Municipal nº 5 de Setembro de 1989.
(6)–Alcoutim, Revista Municipal, nº 8 de Setembro de 2001, p. 12.
(7)–Alcoutim, Revista Municipal, nº 11, de Janeiro de 2005, p. 12.
(8)–Alcoutim, Revista Municipal, nº 10, de Dezembro de 2003, p. 6.

Publicado por José Varzeano

 

BLOG ALCOUTIM LIVRE - jose.varzeano@gmail.com  

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Nota sobre a nota abaixo:

O amigo José Varzeano fez o favor de publicar integralmente no seu prestigiado Blog Alcoutim Livre o nosso comentário abaixo, colocado aqui por nós quando da edição do anterior texto publicado nesta página Velhos usos de Alcoutim.

Os nossos maiores agradecimentos.

Nota de Daniel Teixeira:

O amigo José Varzeano tem-me desafiado para escrever as minhas memórias de infância, tendo esta sido passada periodicamente no Concelho de Alcoutim, mais propriamente em Alcaria Alta, Freguesia de Giões, Concelho de Alcoutim, todos os anos quando das férias escolares.

Eu tenho memórias - e boas - de factos passados nesses períodos, que irei escrevendo mas hoje esta história do José Varzeano e do Luís Cunha fez-me lembrar um episódio que se contava ter acontecido com o meu avô num destes casamentos e cavalgadas. Acho que se chamavam mais de «burricadas» porque sendo o burro o animal menos lesto (que os cavalos e mulas) se procurava dar uma condição de igualdade a todos os participantes.

Conta-se que numa dessas burricadas o noivo e a noiva - que não participavam da corrida mas montavam ao mesmo tempo na praça da igreja do casório - tinham começado o seu percurso a passo para acelerarem mais à frente, como era uso. A noiva, sentada na besta atrás do agora marido, «à senhora», quer dizer de lado, com ambas as pernas para o mesmo lado - nesse tempo era mesmo assim e nem podia ser de outra forma - talvez resultado da emoção terá colocado mal o braço à volta da cintura do marido e com um balanço do animal acabou por cair para trás.

Felizmente que o animal era baixo e ela instintivamente enrolou-se na queda o suficiente para não bater com a cabeça no solo. Toda a gente correu para ajudar a senhora e o meu avô, vendo que ela tinha ficado com o ventre e as ceroulas à mostra, lesto tirou o chapéu e tapou «as partes» da pobre senhora e disse para quem mais tinha vindo ajudar, mantendo a mão e o chapéu firmes na sua tarefa: «tratem vocês aí do resto que disto já eu estou tratando!».