| pagina seguinte |
| poesia |
| cronicas |
| contos |
| cultura |
| educação |
| agenda cultural |
| humor |
| ambiente |
| solidariedade |
| assuntos europeus |
| ciência |
| tecnologia |
| colunas/empresa |
| biografias |

Poesia de Cremilde Vieira da Cruz

NUM APICE - DESCAMINHOS
NUM APICE
E se o sol se dependurasse
Sobre teus pensamentos confusos
E, num ápice,
Tuas ideias aclarasse?
Quem sabe se tremenda tempestade
Penetrou teu coração
Com o soltar duma gota de orvalho
Diante de teu olhar distraído?!
Quem sabe se tua inquietação
Foi um nevoeiro qualquer
Que se dependurou dos céus
Em manhã de chuvas magoadas?!
Quem sabe se tua inquietude se impôs
Com a aproximação das trovoadas
Dum Outono invernoso,
Ou de qualquer anoitecer
Sem a voz duma lâmpada acesa?!
E se o sol se dependurasse
Sobre tuas mãos ansiosas
E, num ápice,
Tua mão agarrasse
E te levasse pela mão
Com rumo ao rumo certo?!
Talvez o sol se dependure!..
DESCAMINHOS
Escorre da vidraça uma chuva vulgar de Outono,
Lavada como cristais.
Cá dentro, o sono de todas as almas,
O peso nos olhos de noite mal dormida.
As prateleiras estão cansadas,
Tanto que os livros pesam
Tanto peso da poeira.
Guardo meu silêncio logo pela manhã.
Tiro um livro da prateleira,
Descanso em sua leitura minha canseira
De palavras mal soadas, vãs.
A cidade está triste
E sente no corpo o peso da névoa dependurada
Do céu cinzento de nuvens negras.
É indiscutível que estou como a cidade.
As ruas estão povoadas de guarda-chuvas,
Mas apesar disso existem corpos molhados.
Está latente na minha aparência,
Nos tremores que sinto,
Na roupa molhada,
Que a chuva se dependurou nos meus ombros,
Se agarrou a mim com fúria
E me encharcou até à alma.
Não há vigílias que me acordem
E estagno no silêncio da aragem;
Se me diz uma palavra breve
Ou me toca ao de leve, divago
Como se tivesse asas nos pensamentos,
Mas sinto um peso enorme nos pés.
Iludo-me às vezes com qualquer rumor das árvores,
Com o deambular dos galhos à passagem do vento,
Mas estranho a rapidez do ruir de meus sonhos
Sempre partidos para parte incerta,
Deixando um hálito amargo em minha boca.
Pesa-me um peso enorme sobre as têmporas,
E sobre a consciência o terror de a não sentir.
O mundo depara-se-me às avessas,
Ou sinto-me como se tivesse a inocência das crianças,
Quando falsas verdades acordam meu tédio.
E inútil tentar seguir o caminho
Nesta vereda de labirintos e descaminhos.
As miragens são sombras
Como palavras sem vestes;
Fazem-me esquecer que vivo
E sinto um apagamento dentro de mim
Como se não vivesse na realidade.
Penso que tenho a noção do que é a paz,
Mas senti-la, não sou capaz.
A chuva não cessa.
O mesmo acontece com minha inércia
E fico prostrada aqui
A olhar a chuva.
Cremilde Vieira da Cruz