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COLUNA
DE ROSA PENA
Chanel 51
Para onde vão as quimeras que nós profanamos? Sonhos não podem virar realidade. Devem ficar em estado de eterna utopia.
Será que vão morar junto com o anel que «tu me deste era vidro e se quebrou», o outro pé do brinco indiano, o batom cereja que a mochila da Company engoliu, o bilhete recebido com aquelas flores em algum dia dos namorados, a velha e companheira Lee comprada na nossa estréia em Free Shop?
Há um esconderijo, um pântano onde são tragados os sorrisos dos quinze anos,
bolo vivo de meninas ainda brotos de mulher, a paquera com o professor de
história, o cheiro de suor do bruto tesudo que dirigia a lotação do Nelson,
o gosto do vinho daquele reveillon, quando a gente ainda acreditava em ano
novo vida nova, o beijo delicioso que não teve replay (a língua ficou à
míngua). «O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou».

Ficam lá, numa esquina impenetrável, ao som de meia dúzia de frases
repetidas pelos deuses da nostalgia e a gente implora ao diabo contemporâneo
para esquecer. No dia em que percebemos que eles, finalmente, compraram
passagem pra desmemória... Ah! Escrevemos para imortalizar.
E é bizarro ver os lábios trancados e as palavras voando soltas. Acho que ficamos com uma puta vontade de «gritar» no aberto tudo que vivemos em pvt. Perai galera! Vivi sim!
Talvez mais... É uma vontade filha da mãe de falar para as mocinhas, teimosas em nos ensinar como é a vida, que já tivemos brincos caducos, bolsas de griffe, aeroportos com suspiros de tesão, vinte e nove semanas de amores proibidos, desejo súbito de ter geladeira amarela para homenagear o submarino, AP cheirando a incenso patchuli, corpo borrifado de Chanel n°5, calcinhas da Victoria's, cangas de bali, barriga sarada, Red Bull sem flacidez nas asas.
A gente não nasce tias do Mauro Rasi.
A vida é que nos veste delas.