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Reflexão doentia
Reflexão de Michel Crayon

Há bocado estive a ver mais um episódio do Dr. House, coisa que já me vai chateando, mas que falta de melhor me vai satisfazendo naquele patamar de exigência mínima a que sou forçado por vezes, porque não dá nada de melhor na TV e eu preciso de me distrair um bocado, mesmo que essa distracção seja uma distracção mínima.
Havia duas personagens, doentes, em jogo, com maior relevância (para
além do para mim já pseudo carismático Dr. House): uma, uma jovem que
alegadamente tinha sido violada e um outro, um velhote canceroso em fase
terminal.
A jovem, chata como o penico, na minha visão cínica, e passe a aparente
insensibilidade, é preciso não esquecer que se trata de um filme, com
uma história limada pelos especialistas emocionais que realizam a série
e fazem o argumento, adquiriu, essa jovem, pelas mãos do argumentista, o
estatuto privilegiado de ter de ser tratada nas palmas das mãos.
Para o efeito, durante uma consulta de psiquiatria, jogou a mão a um
frasco de comprimidos e engoliu-os de uma assentada. O facto de ter sido
violada (numa festa de uma amiga, esclareço, não se trata daqueles
rappes vadios em ruelas escuras) não terá parecido suficiente ao
argumentista para alicerçar a história, pelo que este (o argumentista)
lhe meteu uma vintena de comprimidos pela goela abaixo, deitando-a no
chão a espumar.
Por outro lado e noutro lado o velhote em fim de vida chama a atenção da
Dr.ª Cameron (um bom borracho mas muito insonsa, diga-se) recusando os
tratamentos paliativos que lhe atenuariam a dor, porque alegadamente
quer morrer com dor. Depois, afirma à referida Dr.ª, que só pretende que
ela se lembre dele, numa manifestação de isolamento e num desejo de
deixar pelo menos uma memória nesta terra, plantada na mente da Dr.ª
Cameron.
Ora, uma e outra personagem e volto a repetir que se trata de um filme
(uma série) e que nada daquilo é real senão o desejo dos argumentistas
de seguirem receitas mediáticas que possam rentabilizar o negócio, as
pessoas, de cultura americana, procuram afirmação, procuram afirmar-se,
procuram fazer com que aquilo que elas vivem e aquilo que as atinge seja
importante, seja relevante e por essa razão mesma as faça sair do
relativo anonimato e solidão que vivem em cada um dos seus casos.
Ora e passado este resumo entro naquilo que verdadeiramente me interessa
explorar nesta minha reflexão «doentia». Ninguém, que eu me lembre, quer
desaparecer desta terra sem deixar um rasto, um traço, algo de
significativo que faça com que os outros se lembrem dele, mesmo que
ninguém, passados quinze dias da sua morte, se lembre do que quer que
seja que essa pessoa possa ter feito de bem ou de mal.
Por princípio, aliás, quem morre é sempre bom mesmo que tenha sido um
grande bandido em vida, o que falseia o resultado daquilo que se fez, de
facto. Ficciona-se, pudicamente, porque não se quer mandar para o Além
ninguém mau, talvez por receio de eventual contaminação quando chegar a
sua vez de partir.
Que é feito daquele espírito heróico que não deixa traços, do herói
anónimo que se esconde sob a capa da clandestinidade, daquele indivíduo
que faz o bem (ou o mal) por si mesmo e para si mesmo, por consciência
própria e sem estar à espera quer do apoio quer da reprovação alheia?!
«Aquele gajo é mau como as cobras!» diz-se, mas pergunto-me eu porque é
que alguém precisa de saber que A ou B é mau?! Não se pode praticar o
mal sem dar nas vistas (?), e quando falo em mal falo daquele mal
social, relacional, sei lá...maldade simples, com consequências mais
subjectivas que objectivas.
«Aquele gajo -ou gaja - é um (a) santo (a)!» diz-se: mas também aqui não
seria de aplicar o ditado «fazer o bem sem olhar a quem!» acrescentado,
«e sem que ninguém saiba?!». Isto tudo incomoda-me porque eu sou um
adepto ferrenho do anonimato, da clandestinidade. Não gosto de dar nas
vistas, nem quando faço o bem nem quando faço o mal: só quero que me
deixem em paz, que não reparem em mim, que façam de conta que as coisas
(o bem ou o mal por mim feito) apareceram por geração espontânea e que
eu nada tive a ver com isso.
Ora, as outras pessoas (todas) deveriam ser assim também, penso eu,
embora a minha opinião seja suspeita: interessa mais aquilo que é feito
ou aquilo que é feito e por quem é feito?! E é isso que eu vejo cada vez
mais plantado nesta nossa cultura de m.erda... Fulano, à conta de um
acto (bom ou mau) realizado e depois conhecido por terceiros coloca
(propositadamente ou não, não interessa) uma pedra no edifício da
construção da sua personalidade externa.
«Os portugueses conhecem-me!» dizia um político agora definitivamente
reformado e sempre não reformado. Mas eu alguma vez conheci aquela
alminha?! Quem lhe deu o direito de dizer que eu (português) o conheço?
Que agressiva intrusão é essa no campo da minha intimidade? E como este
há muitos...
Pois a boa política, a boa pessoa, a má pessoa (não falo do criminoso, é
claro!) merece ter direito à exclusividade da construção da sua própria
personalidade e tem direito a não sofrer influências externas que
alterem a percepção que essa mesma pessoa tem de si mesma. Tem direito a
reservar para si aquilo que quer deixar da sua não - memória para os
outros.
Ninguém precisa de saber, ninguém tem de saber, senão o próprio. E é
esse o princípio base de uma vida sã e sem influências externas.
Alguém vem mexer no meu processo digestivo, por exemplo, ou nos meus actos reflexos, nos meus tiques, no interior do meu sono ou dos meus sonhos? Mas toda a gente sente uma necessidade absoluta de mexer na ideia e no pensamento do outro...precisamente aquele pensamento que paradoxalmente se canta ser livre como o vento. Ora bolas!!!