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Coluna de Cecilio Elias Netto

Cecílio Elias Netto é fundador do Jornal A PROVINCIA

A PROVINCIA, como jornal impresso, foi fundada em 28 de Agosto de 1987, pelos jornalistas Cecílio Elias Netto e Gustavo Jacques Dias Alvim.

Durante duas décadas, com idas e vindas, ela cumpriu o seu propósito e o sonho desenvolvido: recuperar a memória de Piracicaba, especialmente através da oralidade de seus mais antigos moradores, contar a história do município e da região, com fartura de documentos e de fotos e postais.

O lema continuou vivo quando, há cerca de dois anos, A PROVINCIA ingressou no universo digital, criando A PROVINCIA electrónica, com o mesmo objectivo e a mesma motivação: «Paixão por Piracicaba».

Ruídos e doença da alma

Volto a insistir que morri para a análise política, que morri, como jornalista, para o cotidiano de uma cidade que está optando pelo pragmatismo individualista e egoístico. Minha missão foi cumprida até um tempo recente, quando homens públicos tinham, ainda, um mínimo de sensibilidade social e, também, um mínimo de decoro diante da coisa pública. Não tenho o direito de perder o pouco tempo que me resta com mediocridades sem conserto.

No entanto, estou cada vez mais vivo e presente como cidadão e não abro mão de um milímetro sequer desse meu direito à cidadania, como jornalista ou como um escritor recolhido a seu canto.

Essa violência, em relação a mudanças na Lei do Silêncio – proposta por um prefeito pragmático e suscetível ao jogo eleitoral – não pode passar desapercebida, pois revela absoluta insensibilidade diante do mínimo que se entenda por civilidade e cultura.

Mas, como, hoje, esperar de governantes um mínimo de conhecimento de cultura e civilidade, se o olhar cúpido deles está voltado ao interesse imediato, a grupos setorizados, a influências poderosas nem sempre generosas, quase sempre perniciosas?

Grandes empresas mundiais estão, atualmente, contratando como membros importantes de sua diretoria ou de conselho diretivo, filósofos e pensadores, pois essa nova época exige reflexões que faltam a empresários, chefes de governo, economistas, administradores. Interpretar os sinais dos tempos, refletir sobre a influência das novas tecnologias no cotidiano das pessoas, pensar as novas comunidades que surgem e novos estilos de vida – esse papel cabe ao filósofo como, antes, coube aos sábios da comunidade, aos conselhos de anciãos.

A Prefeitura e a Câmara Municipal, penso eu, deveriam socorrer-se de nossas universidades, de humanistas, de artistas, de poetas, que estão mais próximos da alma humana do que a economia de mercado e construção de pontes, rotatórias e avenidas.

Se a Câmara de Vereadores aprovar essa alteração na Lei do Silêncio, estará cometendo um mal irreparável, dando início a um processo de contaminação espiritual do povo, em favor apenas de donos de espetáculos barulhentos, sejam de leigos, sejam de pastores.

Vereadores médicos têm o dever e a obrigação de explicar, a seus colegas, que doenças da alma são como as do corpo e, portanto, transmissíveis. O estresse, a raiva, o ódio, a violência são considerados, por muitos especialistas, enfermidades somáticas que possuem algo comum que permite a sua propagação. Há um contágio anímico.

E o barulho – seja dos templos, das festas de peões, de clubes – é um dos mais graves elementos propagadores. Da mesma forma como a alma, ao ser alcançada pelo erotismo, leva à excitação do corpo, o barulho, atingindo a alma, enlouquece o corpo. Esse contágio se propaga rapidamente. E a própria Polícia sabe que os ruídos, estrondos e barulhos do trânsito são causas quase vitais na violência de motoristas entre si.

Abro parêntese para uma análise, com a qual busco colaborar com os senhores vereadores: «Em nosso tempo, a falta de sentido assume novas forças, com a retomada dos exorcismos sentimentais contra a razão. Os programas televisivos, com seus «pastores eletrônicos», abrem espaço para o curandeirismo, a astrologia e demais crendices («eu acredito em duendes».) populares, dando muito dinheiro aos charlatães que se apresentam, não por acaso como praticantes de uma pseudopsicolinguística.

Esse irracionalismo atingiu há muito tempo a política.» A análise é do respeitabilíssimo filósofo Roberto Romano, justamente num livro de sua autoria com o título «Silêncio e Ruído.»

Há poucos anos, um desses pastores, aqui mesmo em Piracicaba, declarou – sem que nenhum Promotor Público agisse em defesa do povo – que fizera negócios com políticos ora no poder, dando-lhes «50 mil votos de seus fiéis».

Negociar votos não é contra a ordem moral, não se tornou um dos motivos do surgimento da Lei da Ficha Limpa? Pois são esses homens que pressionam a Prefeitura e a Câmara para o escândalo e a violência de ceder espaço ao barulho e aos ruídos, criando mais doenças da alma, através do contágio provocado por uma contaminação deliberada.

Seria o mesmo que um portador do vírus da AIDS, propositalmente, doasse sangue a terceiros. A Câmara de Vereadores não pode ser comparsa nesse assassínio de almas em nossa terra. Ou pensa que pode?

Bom dia

Acesse também
Lei do Silêncio e falta de decoro

Cecílio Elias Netto

Nota: Pode comentar este texto directamente no jornal A Província carregando aqui.


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